CP - 26/11/2012: Nós nos acovardamos ou nos acomodamos? (artigo - opinião do leitor)
Data da postagem: 26 Nov 2012
Nós nos acovardamos ou nos acomodamos?
MÁRCIA ELISA PEREIRA TRINDADE
Nós nos acovardamos ou nos acomodamos? Esta frase ouvi no rádio um dia desses. Tocou-me profundamente, porque é a síntese da nossa sociedade, com raras exceções. O interessante é que o contexto era a saúde, o bem mais valioso que temos. A expressão me fez refletir: enquanto buscamos uma sociedade mais justa, mais dinâmica, mais tecnologicamente avançada, nos deparamos com cenas que são verdadeiros suplícios para aqueles que buscam um tratamento de saúde decente. Prova é a cena que podemos assistir ao passar pela avenida Borges de Medeiros, onde fica a farmácia básica do Estado. Observamos pessoas debilitadas num sol de 30 graus ou expostas a invernos rigorosos, aguardando seus medicamentos em filas homéricas, em uma calçada que mal dá para dois seres vivos passarem lado a lado. Esta cena repete-se há anos e ninguém toma providência alguma. A nossa complacência, tolerância, descaso me faz perguntar: “Nós nos acovardamos ou nos acomodamos?”.
E o que dizer do SUS, com sua legislação digna de um filme de terror? Onde os usuários, não raras vezes, são tratados como se estivessem pedindo um favor pelo uso de um serviço que deveria oferecer condições mínimas de atendimento.
Além disso, muitos, quando conseguem atendimento, são mandados a quilômetros de distância de casa. Em alguns casos as pessoas nem chegam a ser atendidas, pois morrem dentro
das ambulâncias a caminho do hospital.
O sistema de gestão é, no mínimo, disfuncional, uma vez que em qualquer secretaria, seja municipal, estadual ou federal, após as eleições, tem um manancial de cargos em comissão distribuídos em diversas áreas de gestão da saúde. São trabalhadores sem currículo adequado, meros carregadores de bandeira que assumem responsabilidades muitas vezes desconhecidas. E os servidores públicos de carreira continuam mal pagos, desestimulados, desqualificados tentando, na medida do possível e do impossível, prestar um serviço condizente com a demanda da população.
Assim, as políticas de saúde são “planejadas” e “executadas” com prazo de validade que normalmente coincide com um mandato eletivo. A cada quatro anos surgem novos “Messias” que irão consertar os erros da gestão anterior. Só que a falta de verba e as dificuldades operacionais prosseguem. Programas de saúde são refeitos e desfeitos, tendo apenas seus nomes trocados. Os hospitais continuam jorrando pessoas pelo ladrão, os postos de saúde abarrotados, as instituições privadas e públicas continuam oferecendo serviços de “quinto mundo”. Precisamos de profissionais qualificados, remunerados de forma digna e que prestem um serviço de forma humanitária e igualitária. Até quando veremos pessoas sendo tratadas com desrespeito, brutalizadas pelo sistema sem levantar nossas vozes contra a situação? Então, nós nos acovardamos
ou nos acomodamos?
presidente do Sindissama
Fonte: Jornal Correio do Povo - 26/11/2012 - pág. 02
MÁRCIA ELISA PEREIRA TRINDADE
Nós nos acovardamos ou nos acomodamos? Esta frase ouvi no rádio um dia desses. Tocou-me profundamente, porque é a síntese da nossa sociedade, com raras exceções. O interessante é que o contexto era a saúde, o bem mais valioso que temos. A expressão me fez refletir: enquanto buscamos uma sociedade mais justa, mais dinâmica, mais tecnologicamente avançada, nos deparamos com cenas que são verdadeiros suplícios para aqueles que buscam um tratamento de saúde decente. Prova é a cena que podemos assistir ao passar pela avenida Borges de Medeiros, onde fica a farmácia básica do Estado. Observamos pessoas debilitadas num sol de 30 graus ou expostas a invernos rigorosos, aguardando seus medicamentos em filas homéricas, em uma calçada que mal dá para dois seres vivos passarem lado a lado. Esta cena repete-se há anos e ninguém toma providência alguma. A nossa complacência, tolerância, descaso me faz perguntar: “Nós nos acovardamos ou nos acomodamos?”.
E o que dizer do SUS, com sua legislação digna de um filme de terror? Onde os usuários, não raras vezes, são tratados como se estivessem pedindo um favor pelo uso de um serviço que deveria oferecer condições mínimas de atendimento.
Além disso, muitos, quando conseguem atendimento, são mandados a quilômetros de distância de casa. Em alguns casos as pessoas nem chegam a ser atendidas, pois morrem dentro
das ambulâncias a caminho do hospital.
O sistema de gestão é, no mínimo, disfuncional, uma vez que em qualquer secretaria, seja municipal, estadual ou federal, após as eleições, tem um manancial de cargos em comissão distribuídos em diversas áreas de gestão da saúde. São trabalhadores sem currículo adequado, meros carregadores de bandeira que assumem responsabilidades muitas vezes desconhecidas. E os servidores públicos de carreira continuam mal pagos, desestimulados, desqualificados tentando, na medida do possível e do impossível, prestar um serviço condizente com a demanda da população.
Assim, as políticas de saúde são “planejadas” e “executadas” com prazo de validade que normalmente coincide com um mandato eletivo. A cada quatro anos surgem novos “Messias” que irão consertar os erros da gestão anterior. Só que a falta de verba e as dificuldades operacionais prosseguem. Programas de saúde são refeitos e desfeitos, tendo apenas seus nomes trocados. Os hospitais continuam jorrando pessoas pelo ladrão, os postos de saúde abarrotados, as instituições privadas e públicas continuam oferecendo serviços de “quinto mundo”. Precisamos de profissionais qualificados, remunerados de forma digna e que prestem um serviço de forma humanitária e igualitária. Até quando veremos pessoas sendo tratadas com desrespeito, brutalizadas pelo sistema sem levantar nossas vozes contra a situação? Então, nós nos acovardamos
ou nos acomodamos?
presidente do Sindissama
Fonte: Jornal Correio do Povo - 26/11/2012 - pág. 02





